“Porque na verdade, tudo isso não vale a pena.”Era um dia desses, qualquer, uma quarta ou quinta feira ociosa de Maio, quando as folhas estão naquele ponto onde se assemelham com o fogo e tudo parece vivo como chamas a impestiar os frondosos galhos que dia a dia se tornam mais aparentes a cada folha que se despede e cai para forrar o chão, mais uma que se foi, dando continuidade ao nobre e imaculado manto amarelo que cobre a cidade, como luzes borbulhantes que craquelam a cada passo apressado das crianças empolgadas rumo à escola, ou do carrinho de bebê empurrado pela nova mãe, que admirada, olha sua cria e inala aquele doce perfume; ou um confuso assalariado, apressado, copo de café na mão, paletó aberto na frente, esvoaçando para trás, sua maleta a tocar periodicamente algumas dessas folhas teimosas que insistem em brincar com o vento, num sobe e desce sutil e embalante.
Pois foi nesse dia que ela decidiu que não mais seria a doce Emily. A vida não permitira. Era sempre alvo das piores piadas que ela podia lhe fazer, sempre. Decidira após muito pensar ali, naquele banco gelado, embaixo da mesma árvore que descascava suas folhas cor de fogo e cobria o chão num mar vibrante. Sentada ali, viu as crianças passarem empolgadas indo à escola, de mãos dadas às mães, que mais eram puxadas; viu o carrinho craquelar as folhas e sentiu, de olhos fechados e ombros erguidos o suave cheiro de bebê; viu o assalariado queimando a boca com um gole do café que esfumaçava. Percebeu que a vida havia passado. Não mais poderia ter as mesmas oportunidades que aquelas crianças, com a vida inteira pela frente cheia de realizações a serem conquistadas, amores, decepções, alegria…
Não mais poderia ver se formar em sua própria madre, uma vida gerar. E definitivamente não possuía a sorte de ter um emprego do qual sequer reclamar. Quem dera!
Aos seus tenros 23 anos, Emily tomou a única decisão que fez dela uma mulher de atitude. Precipitada, é verdade, mas atitude. Morreria. Mas sabia quem havia a matado. Ela própria.
Emily. 23 anos. Descoberta caída, no chão do banheiro, pílulas amarelas por todo lado. Frasco vazio. Diz uma fonte que podia jurar ver um leve sorriso em seu rosto.
Realização.