Sentimentos não se explicam

November 21, 2006 - One Response

 

As palavras saem bagunçadas, eu bem sei. Quanto mais coerente tento ser, menos articulado tudo fica. Bem que você disse que sentimentos não se explicam…

Coerência

Falo
Mão nos cabelos
Penso
Mãos nos olhos
Saiu tudo errado
Eu falo de novo
e continua saindo tudo errado.

Melhor seria ter ficado quieta.

E você insiste que sentimentos não se explicam.

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November 21, 2006 - Leave a Response

Tu és triste, eu sei. Não precisas inventar mil estórias, de músicas e danças e água e lambança, teu rosto é triste, eu bem sei.

Teus olhos não enganam, és triste… e eu sei. Enquanto tentas sorrir com os dentes, com lábios carentes, teus olhos refletem dor e desprezo, cólera de ti mesmo. Não me enganam…são tristes e eu bem sei.

Essas tuas mãos que te traem, por elas és triste e eu sei. Levam a ti toda a vontade de ser aquilo que tanto não és, te deixam um cheiro que ao invés, te imergem em vazio, solidão e medo.

Tua teimosia muito me assusta, és escravo dela, mas pensas que não. Enquanto tu tentas, por entre as correntes, nadar contra a gente, bem contra a torrente, é triste, eu sei, mas pensas que não.

Não vês que o equívoco, esse em qual tu vives, te deixa assim, sozinho e crítico, pois em queda livre, mas pensas que voas!

E esse teu cheiro de casa vazia, me deixa triste, é, e bem sei.

Colorido

November 1, 2006 - 2 Responses

 

por maior que seja a indiferença, sempre terá o colorido.

*
a gente
sempre pensa
que o morno pode ser bom.

*
a gente
sempre concluí
que o de menos
é sempre o que flui.

*
Mas eu escolhi que as cores que vi
tornassem o que era
tudo de ruim
em outro assim
tornassem em mim
tudo de gelado
que fosse embora
quem sabe outrora
e a indiferença
que já de nascença
assolava minha mente
e plantava e colhia
sementes vazias
de dor e de medo
não mais habitavam
porque’aquelas cores
que um dia escolhi
escolhi pra que fossem
verdade pra mim.

Pingos de chuva

November 1, 2006 - Leave a Response

 

Publicado no Jornal Vítreo FACAMP 2006.

Publish on Vítreo Newspaper FACAMP 2006 

Tem dias em que a gente sente uma coisa diferente dentro da gente.Costuma ser naqueles dias nada importantes, ociosos, como uma terça, ou quarta, sem compromissos, sem convites, sem telefonemas, apenas a rotina.É um daqueles dias em que o céu pendura nuvens escuras e grandes e fofas.

Nuvens de um azul melancólico; negrume a transbordar pelos cantos arredondados, prestes a sucumbir em gotas… espessas até demais. E o Sol ali, com veemência jorrava seus raios por entre os vapores, sombrio ao fundo, clareando toda a superfície cidadã.Os telhados refletiam o amarelo do sol, enquanto ao fundo, o céu fúnebre, mas não em seu todo, tentava segurar para que as primeiras gotas de chuva não partissem. Andando na rua, sentindo os pés quentes do asfalto borbulhante, senti quando a primeira gota rompeu em deságüe e buscou a gravidade. Caiu. E caiu em cima de mim. Depois dela vieram muitas outras, com vontade, com desejo, grandes gotas de chuva gelada que rompiam o céu Terra abaixo, penetrando e perfurando os raios do sol que brilhavam cada vez mais. Pela tarde ensolarada eu via as gotas transparentes caindo, uma após a outra, após a outra, após a outra… E olhando para cima, meus olhos ardentemente buscavam ver, frente à nuvens melancólicas e raios ensolarados, onde estaria aquela certeza.

Onde estaria o arco-íris? E, ali, naquele momento, logo após as árvores, do bosque, logo após a virada, o meu semblante lhe sorriu. Não pôde ser contido.Estava grata por vê-lo, mesmo que ele estivesse esmorecendo, bem fraquinho lá em cima.E em meu coração veio aquela grandiosa certeza (tão grandiosa quanto o próprio existir do arco-íris) de que aquele que o fez nunca falha.

Ele nunca falha para desenhar o arco-íris no céu. Ele nunca falha comigo, nem com você… Apenas devemos saber procurar no lugar certo onde nossa resposta está. No arco-íris, ela estava onde deveria estar.
Contra o sol, em direção às nuvens…

Realização

November 1, 2006 - Leave a Response

 

“Porque na verdade, tudo isso não vale a pena.”Era um dia desses, qualquer, uma quarta ou quinta feira ociosa de Maio, quando as folhas estão naquele ponto onde se assemelham com o fogo e tudo parece vivo como chamas a impestiar os frondosos galhos que dia a dia se tornam mais aparentes a cada folha que se despede e cai para forrar o chão, mais uma que se foi, dando continuidade ao nobre e imaculado manto amarelo que cobre a cidade, como luzes borbulhantes que craquelam a cada passo apressado das crianças empolgadas rumo à escola, ou do carrinho de bebê empurrado pela nova mãe, que admirada, olha sua cria e inala aquele doce perfume; ou um confuso assalariado, apressado, copo de café na mão, paletó aberto na frente, esvoaçando para trás, sua maleta a tocar periodicamente algumas dessas folhas teimosas que insistem em brincar com o vento, num sobe e desce sutil e embalante.
Pois foi nesse dia que ela decidiu que não mais seria a doce Emily. A vida não permitira. Era sempre alvo das piores piadas que ela podia lhe fazer, sempre. Decidira após muito pensar ali, naquele banco gelado, embaixo da mesma árvore que descascava suas folhas cor de fogo e cobria o chão num mar vibrante. Sentada ali, viu as crianças passarem empolgadas indo à escola, de mãos dadas às mães, que mais eram puxadas; viu o carrinho craquelar as folhas e sentiu, de olhos fechados e ombros erguidos o suave cheiro de bebê; viu o assalariado queimando a boca com um gole do café que esfumaçava. Percebeu que a vida havia passado. Não mais poderia ter as mesmas oportunidades que aquelas crianças, com a vida inteira pela frente cheia de realizações a serem conquistadas, amores, decepções, alegria…
Não mais poderia ver se formar em sua própria madre, uma vida gerar. E definitivamente não possuía a sorte de ter um emprego do qual sequer reclamar. Quem dera!
Aos seus tenros 23 anos, Emily tomou a única decisão que fez dela uma mulher de atitude. Precipitada, é verdade, mas atitude. Morreria. Mas sabia quem havia a matado. Ela própria.
Emily. 23 anos. Descoberta caída, no chão do banheiro, pílulas amarelas por todo lado. Frasco vazio. Diz uma fonte que podia jurar ver um leve sorriso em seu rosto.
Realização.

Dona Morte

November 1, 2006 - One Response

Não sei se vocês já se deram conta, mas sempre tem aquela mulher, num hospital, geralmente com seus 55 anos a dizer aquela frase:
– saúde é tudo na gente, né.


Olha pra gente com aqueles olhos tristes, sorriso estampado, mãos cruzadas em cima do colo, geralmente segurando uma bolsa de couro preto que está transpassada pelo torso, por cima de um casaco de lã azul.

Olha pra gente, olhos tristes.

Foi a pressão, sabe.
O moço mandou esperar vinte minutinhos até a pressão ‘baixar, tava 17 por 11, acredita? Geralmente é 14 por 9. Mas não é problema não, fiz aquele mapeamento todinho ‘pá ver se era problema de pressão alta, mas o doutor disse que não, que é o normal. E pensar que eu estava vendo televisão hoje de noite e senti uma coisa aqui na cabeça, passando pra lá e pra cá, como se tivesse um bicho aqui dentro. Mas ‘cê sabe que uns seis meses atrás me deu derrame do do outro lado, aconteceu igualzinho que nem hoje, um fiozinho que corria de lá pra cá, de cá pra lá na cabeça da gente que paralisou meu rosto do lado direito todinho, precisava ver.

Fui-me.

E ainda ao virar a esquina do corredor do pronto socorro ainda a ouvi dizer, longe:

-É. A saúde na gente é tudo, né… ‘cê sabe que…

Amadeus

November 1, 2006 - Leave a Response

Nuvens fofas me apóiam.
Sabe-se lá como parei aqui.

O chão não existe, apenas um infinito azul anil e nuvens.
Com a mão estendida, provo uma delas. Doce. Açúcar. Mel.
O adocicado sabor me faz lembrar daquele beijo.

Amadeus sempre fora o cara certo pra mim, eu é que não via.
Quando ele tomou posição e sem avisar me enlaçou em seus braços, me segurando com a palma de suas grandes mãos, senti o seu calor contra meu corpo e o quente de seus braços ao redor de meus ombros, encostou seus lábios nos meus e me fez sentir o melhor gosto que um beijo pode ter. Doce.
Seus lábios pressionados contra os meus, aquela pressão boa e quente, e uma explosão de sentimentos dentro do meu peito me deram a certeza de que era com ele que passaria o resto da minha vida.

Por que relutei tanto?

Agora, sentada no infinito espaço de um lugar desconhecido, permito-me deixar levar por uma leve brisa que encaracola em meus cabelos.

Fui muito difícil. Sete anos atrás, quando conheci Amadeus em um bar, nunca pensei que ele pudesse ser o responsável pelo redemoinho de fervor e paixão que girava dentro de mim.

Nunca dei espaço. Após sete anos de encontros e desencontros, naquele dia frio de Setembro, meu Ama, meu Deus, me conquistou com sua doçura.

E foi ao saírmos abraçados por aquela praça do centro da cidade, rumo à felicidade eterna, senti-me protegida por seu peitoral.
E foi ali que o perdi.
Vi apenas luzes girando, verde, vermelho, sirenes…
A mão do meu Deus segurou na minha e disse para que eu não tivesse medo.
Ao passar os olhos pela praça, agora na minha horizontal, vi ali um homem com arma em punho.
Senti, então, o calor…o mesmo calor que Ama provocara em mim segundos atrás que duraram uma eternidade. Mas esse tinha algo de diferente. Era viscoso e saía da mim.

Nuvens fofas…
E o meu, sempre Am’A’deus’

Ode à mulher desvalorizada

November 1, 2006 - Leave a Response

Acaso não me queres?
Eu sei que sim, não adianta esconder.
Porque então me rejeita?
É o meu cabelo? Não sou loira o suficiente para você?
É a minha pele? Não sou bronzeada o suficiente para você?
Se for, me fale! Dê um jeito, mas fale!
Por você eu hei de descolorir meus cabelos, assim, loirinhos, loirinhos.
Se for a minha pele, me avise!
Avisa e então irei à um desses bronzeamentos a jato.
Porque nega sua vontade de me ter?
Seria por eu ter um diploma de uma faculdade? Sou muito inteligente para você?
É o meu emprego? Ganho muito dinheiro, mais do que você?
Se for, avisa! Avisa logo pois eu rasgo meu diploma em mil pedacinhos.
Me fala! Por você eu mando currículo para a loja de roupa feminina do shopping.

As unhas vermelhas te incomodam, meu bem? Não uso mais.
O lápis escuro te incomoda? Eu demaquilo-o de meus olhos.
As lentes de contato azul, minha vida, você gosta?
Apenas faço isso por você.
Porque?
Apenas quero que gostes de quem eu sou.

Jardim

November 1, 2006 - Leave a Response

Olhou à sua frente e viu que tudo que havia desmoronado outrora se reconstruía a olhos vistos.

E ela mal podia acreditar

nesses mesmos olhos que haviam chorado lágrimas,
salgadas, meladas,
geladas, malvadas,
borradas, surradas
E ali ficava a olhar
contemplar o crescer daqueles muros que haviam sido derrubados,
culpados, magoados,
estraçalhados, esmigalhados

e pensava se seria possível que daquele lugar
[que se chamava coração]
um dia voltaria a brotar
e fazer
germinar, florescer
enriquecer, acolher
o mais belo
e formoso de todos os jardins.

Gringo poem

November 1, 2006 - One Response

Gringo Poem

A knight should fight for thee
When the time comes of him doing so
Even though my heart pounds in agony
My cries enhance when it is time to go.

My heart stretches out such as the joy of a new seed
Holding to its thought that it might be time to weep
Has changed, things are different now
For it is not time to find out how

Ye love rests in my soul
Although it may be time to let go
Things unsaid or things unchanged
Even they remain the same

Time of heroes that have died
Time of chances never tried
Of a love that in here cried
And won’t learn just how to fly…